sábado, 31 de julho de 2010

PEDAGOGIA ESPÍRITA

PEDAGOGIA ESPÍRITA

Pedagogia é, segundo os dicionários, uma teoria de Educação; conjunto teórico e prático de técnicas para nova programação de ensino e educação. A pedagogia espírita está entranhada nas obras de Allan Kardec, e tem sua origem nos antecessores do Espiritismo, que foram os grandes pedagogos que vieram antes do professor que codificou a Doutrina dos Espíritos.

Na antiguidade, Sócrates e Platão, depois, Comenius e Pestalozzi, deram eles contribuições importantes que se identificaram com a proposta espírita de educação; tendo a prática da pedagogia espírita começado no Brasil, com o grande espírita e educador Eurípedes Barsanulfo, em Minas Gerais, que deu continuação para a elaboração de um pensamento pedagógico espírita.

“Atualmente, cabe-nos sistematizar melhor todas as idéias esparsas e darmos corpo à pedagogia, que deve formar o ser humano do futuro”, diz a pedagoga espírita Dora Incontri. A pedagogia espírita deve formar um ser humano novo e a escola espírita deve ser completamente revolucionária, rompendo com o sistema vigente, pois a educação religiosa tradicional já não atende às necessidades da pessoa que está adentrando o terceiro milênio. A escola espírita nova deve ser renovadora e não reprodutora do que já foi ensinado.

Allan Kardec, para o perfeito desempenho da sua missão, só poderia ser mesmo um educador, para realizar a tarefa de codificar a Doutrina dos Espíritos, porque, a própria doutrina, é uma proposta pedagógica e pretende promover a educação do espírito. Se ele tivesse sido um cientista na forma tradicional, talvez o Espiritismo tivesse ficado apenas nos fenômenos físicos. Se fosse ele um filósofo de gabinete, talvez o Espiritismo ficasse apenas na meditação sobre o conjunto das coisas. Se ele tivesse sido um sacerdote, talvez o Espiritismo tivesse se tornado uma nova seita a mais entre as tantas existentes. Sendo ele um educador, Kardec direcionou o Espiritismo para a sua verdadeira função: de sintetizar o conhecimento espiritual, reunindo todas as áreas e, ao mesmo tempo, propondo ao ser humano um caminho de auto-educação e evolução.

A liberdade é uma norma essencial da pedagogia espírita, assim como, um dos princípios essenciais do Espiritismo é o respeito à consciência alheia. Assim, a nossa postura de espírita nunca pode ser proselitista, doutrinante de arregimentação de pessoas. O nosso exemplo é que deve contagiar e atrair as pessoas para o nosso meio. Herculano Pires afirmava que “a responsabilidade é uma flor delicada que só nasce em solo da liberdade”, porque, ninguém aprende a ser responsável apenas obedecendo ordens. Ninguém aprende a agir moralmente, estando sempre sob coerção. A virtude moral só brota da livre escolha da pessoa, assim como age a própria pedagogia divina, nos deixando aprender com nossos próprios erros.

Jesus, o Grande Educador, nos disse que “quando conhecêssemos a Verdade ela nos libertaria”. O educador, lidando com a vontade livre do educando, ou o palestrante respeitando o livre-arbítrio do ouvinte, pode e deve convidar e estimular a vontade da pessoa para que se assuma no sentido da evolução intelectual e moral. Quanto maior a abnegação, a doação, maior poder ele terá de conquistar a adesão livre do educando, para que ele mesmo promova a sua auto-educação.

Sem dúvida alguma, os espíritos que estão retornando a Terra, a fim de semear os novos tempos de renovação, não estão mais se adaptando ao esquema tradicional de ensino. Tanto isso é fato que, qualquer professor hoje sabe dos problemas de indisciplina e desinteresse que existe nas escolas em geral. Esses problemas demonstram que a escola e o mundo não estão mais adequados às atuais gerações. É preciso que se entenda que a criança, o adolescente e o adulto é um ser reencarnante e que a finalidade da sua educação não é apenas para moldá-la para o mercado de trabalho, mas principalmente para a sua realização humana; para o cumprimento da sua missão e para a sua evolução em todos os níveis. O educador religioso não pode ser coercitivo, mas deve se empenhar para despertar um processo de aprendizado, prazeroso, porém sério e produtivo.

A educação é um ato de amor; é a ajuda das pessoas grandes para que as crianças e os adolescentes também possam crescer. Os adultos sem amor não podem educar. Pelo contrário, deseducam. É por isso que às vezes é o lar que destrói a educação/instrução dada na escola. Se os pais são insensíveis, a criança é infeliz; carente de amor. Se os mestres são grosseiros, a criança tem medo da escola. As crianças necessitam de afeto, de atenção, de carinho. A natureza humana é diferente da natureza animal. Não se pode nem se deve querer domesticar uma criança, como se fosse um cachorrinho; domá-la como se fosse um potro. Cada criança é uma individualidade despertando para a vida; é uma consciência que desabrocha. O mundo das crianças é diferente do mundo dos adultos. Educar, portanto, é amar, porque a mecânica da educação é a ajuda, o amparo e o estímulo sadio. Os próprios animais não podem ser domesticados apenas com violência.

A violência contra a criança é um estímulo negativo que despertam suas reações inferiores; acorda a fera do passado, vestida de inocência que Deus nos enviou. Só o amor educa e só a ternura faz as almas crescerem no bem. O comportamento do adulto, não só em relação às crianças mais também ao redor delas, tem sobre a criança um poder maior do que geralmente pensamos. O exemplo que damos é uma didática de vida; por isso mesmo é que é perigoso. Nosso ensino oral é quase sempre falso, sem a sinceridade do exemplo. Ensinamos o que não fazemos e queremos que as crianças sigam as nossas palavras. Mas elas aprendem muito mais pela observação dos nossos exemplos do que pelas nossas palavras, porque, na criança o aprendizado está em função do seu instinto de imitação. A menina imita a mãe ou a professora; o menino imita o pai ou o professor. De nada vale a mãe ou o pai, a professora ou o professor ensinarem bom comportamento se não derem eles o exemplo do que ensinam. As palavras passam, mas o exemplo fica e orienta a alma infantil.

Pestalozzi, o mestre de Allan Kardec, sentiu que educar é amar e por isso
dedicou-se à educação com toda a força do seu amor, tornando-se o “paizinho” dos seus alunos, como era chamado por eles. Que cada criança com seu rostinho alegre à nossa frente, como uma flor que desabrocha, nos desperte no coração, o melhor de nós mesmos, o impulso do amor. Que cada adolescente, na sua inquietude e na sua irreverência, não provoque a nossa ira, mas sim que desperte a nossa compreensão e entendimento com ternura.

Para domar o potro precisamos de sela e das esporas, mas para educar uma criança ou o adolescente, necessitamos de paciência, perseverança, trabalho e acima de tudo, de muito amor para dar. Somente assim, realizaremos a tarefa a nós confiada pelo Pai Celestial, na condição de pais e de mestres, para levar esses queridos seres, ao caminho seguro do entendimento e da fraternidade. Nesse sentido, precisamos trabalhar seriamente as propostas educacionais espíritas e aplicá-las com as crianças, os adolescentes, os adultos e os idosos.

O Espírito de Verdade, na mensagem que ditou a Allan Kardec e que consta no “Evangelho Segundo o Espiritismo”, disse: “Espíritas, amai-vos, instruí-vos”. Segundo essa recomendação, o Centro Espírita não só deve evangelizar as crianças, fazer a alfabetização de adultos, como também promover todos os tipos de educação, necessários à evolução intelectual, moral e espiritual, respeitando a individualidade de cada pessoa. Nesse sentido, a educação religiosa é essencial para todos.

Eurípedes Barsanulfo foi o introdutor e o maior educador espírita brasileiro, tendo criado o Colégio Allan Kardec, o primeiro colégio espírita do mundo, onde era praticado uma pedagogia diferente. Tomás Novelino, seu discípulo, também fundou o Educandário Pestalozzi, e abriu mais caminhos para a pedagogia espírita no Brasil... Já falamos em liberdade, moralidade e em pedagogia, mas o que realmente vai promover a educação do ser humano, garantindo que ele direcione-se para o bem, é a força do amor que os pais e educadores tiverem para com ele. Exemplo desse amor está em Jesus. Há séculos que Ele trabalha pela evolução da Humanidade, sendo o mentor e o Mestre de nossa educação, sem usar conosco nenhum meio impositivo ou violento.

Já dizia Allan Kardec: “A educação é a arte de formar pessoas; isto é, a arte de fazer despertar nelas os sentimentos de virtude e abafar os instintos dos vícios. Sua meta consiste no desenvolvimento simultâneo das faculdades físicas, intelectuais e morais”. Os pais, os educadores, os professores, os religiosos, precisam ficar cientes do seu importante papel de agentes transformadores e formadores das pessoas do futuro. Podemos estabelecer o esquema de educação, de acordo com a evolução existencial, segundo as fases admitidas no plano pedagógico: o ser biológico se completa no ser social, este no ser moral para atingir o ser espiritual. Compete à educação, auxiliá-lo nesse desenvolvimento progressivo e orientá-lo para novas conquistas nesta e em futuras existências.

O sentido elevado da Educação Espírita não tem as implicações salvacionistas das formas de educação religiosa do passado. “É, pela educação que podemos reformar o ser humano e o mundo”, disse Kardec. A religião é uma forma especial de educação, aplicada no sentido de arrancar a pessoa da animalidade e conduzi-la à humanização, pelo progresso de sua personalidade, levando-a à espiritualização. Essa posição espírita diz que o Ensino, processo de informação e instrução, combinado com a Educação, processo de formação moral e espiritual, constituem as diretrizes da Doutrina dos Espíritos, e a prática doutrinária em todos os seus aspectos, cabendo a ela completar a missão do Cristianismo.

A educação clássica grego-romana formou o cidadão; a educação medieval formou o cristão; a educação renascentista formou o gentil-homem; a educação moderna formou o homem esclarecido; a educação atual formou o homem ansioso por libertar-se das angústias e traumas psíquicos do passado, nos consultórios de psicólogos e psiquiatras; a educação espírita forma o ser humano, para ser senhor de si, do seu futuro, responsável direto e único pelos seus atos, colaborando com seus semelhantes, ao mesmo tempo em que é reverente a Deus, no qual reconhece a Inteligência Suprema do Universo, e, Causa Primária de todas as coisas existentes.


Bibliografia:
Revista Cristã de Espiritismo
Dora Incontri
Herculano Pires
Evangelho de Jesus
Evangelho Segundo o Espiritismo
Allan Kardec


Jc.
15/06/2000