terça-feira, 3 de maio de 2011

JOANA DE CUZA

JOANA DE CUZA

“E aconteceu que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o Evangelho do Reino de Deus, e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena e Joana, mulher de Cuza e muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens.”
( Lucas, 8- 1 a 3)

= x =

Entre a multidão que invariavelmente acompanhava a Jesus nas pregações do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedicação e nobre caráter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cuza, intendente de Antipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e pescadores.

Joana possuía verdadeira fé; contudo não conseguia se livrar das amarguras domésticas, porque seu companheiro de lutas não aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores íntimos, a nobre senhora procurou o Messias, numa ocasião em que ele descansava em casa de Simão Pedro, e lhe expôs a longa série de suas contrariedades e padecimentos. O seu esposo não tolerava a doutrina do Mestre, porque, sendo alto funcionário de Herodes, em constantes contatos com os representantes do império, repartia as suas preferências religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranqüilidade fácil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente doméstico, expondo suas amarguras em face das divergências religiosas existentes entre ela e o companheiro.

Após ouvir-lhe a longa exposição, Jesus lhe respondeu: “Joana, só há um Deus, que é Nosso Pai, e só existe uma fé para as nossas relações com o seu amor. Certas manifestações, no mundo, muitas vezes não passam de vícios populares nos hábitos exteriores. Todos os templos da Terra são de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da fé viva no coração dos seres humanos. Entre o sincero discípulo do Evangelho e os erros milenares do mundo, começa a travar-se o combate sem sangue, da redenção espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgada digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo não te compreende a alma sensível? Compreender-te-á um dia. É leviano e indiferente? Ama-o assim mesmo. Não te acharias ligada a ele se não houvesse para isso razão justa. Servindo-o com amorosa dedicação, estarás cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas dúvidas; deves, pelo Evangelho, amá-lo ainda mais. Os são não precisam de médico. Além disso, não poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos modificar o solo que produziu cardos envenenados, a fim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida”.
Joana deixava entrever no brilho dos olhos a íntima satisfação que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, mostrando todo seu estado d’alma, interrogou: “Mestre, vossa palavra me alivia o espírito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento recíproco no ambiente do lar,. Não julgais acertado que lute por impor os vossos princípios? Agindo assim, não estarei reformando o meu esposo para o céu e para o vosso reino?”

Jesus sorriu serenamente e retrucou: “Quem sentirá mais dificuldades em estender as mãos fraternas; será o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignorância ou da desolação, da inconstância ou da indolência do espírito?” Continuou Jesus, acentuando a importância das suas palavras: “Quanto à imposição das idéias, por que motivo Deus não impõe a Sua Vontade e o Seu Amor aos tiramos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra?... A sabedoria celeste não extermina as paixões: Aquele que semeou o mundo de cadáveres desperta, às vezes, para Deus, apenas com uma lágrima e transforma-se. O Pai não impõe a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apóstolo do Evangelho é o de colaboração com o céu, nos grandes princípios da redenção. Sê fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. Não percas tempo em discutir o que não seja razoável. Deus não trava contendas com as suas criaturas e trabalha em silêncio por toda a Criação. Vai!... Esforça-te também no silêncio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou enérgico da salvação, segundo as circunstâncias! Volta ao lar e ama o teu companheiro como o material divino que o céu colocou em tuas mãos para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor!...”

Joana de Cuza experimentava agora um brando alívio no coração. Enviando á Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda ouviu-lhe as últimas palavras: “Vai filha!... Sê fiel a Deus!”

= * =

Desde esse memorável dia, para a sua existência, a mulher de Cuza experimentou na alma a claridade constante de uma resignação, sempre pronta ao trabalho e sempre ativa para a compreensão de Deus. Era como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, e considerou que, antes de ser esposa na Terra, já era filha daquele Pai que, do Céu, lhe conhecia a generosidade e os seus sacrifícios. Procurou esquecer todas as características inferiores do companheiro, para observar somente o que ele possuía de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embrião vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o céu lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos; ela, porém, sem olvidar as recomendações de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores nem hino de triunfo silencioso em cada dia. Seu espírito divisava em todos os lugares uma luz sagrada e oculta a lhe amparar.

Os anos passaram o esforço perseverante lhe multiplicou os bens da fé. Um dia,
ás perseguições políticas desabaram sobre a cabeça do seu companheiro. Torturado pelas idéias odiosas de vingança, pelas dívidas, pela vaidade ferida, pelas moléstias que lhe atingiram o corpo, o ex-integrante de Antipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Joana, contudo, se mantinha firme; suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confiança sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho que Deus lhe confiara. Algumas amigas lhe chamaram a atenção, mas Joana buscou esclarecê-las, dizendo que Jesus igualmente havia trabalhado, calejando as mãos e que, ela se mantendo numa situação de subalternidade no mundo, de dedicara primeiro ao Mestre de quem já se havia feito escrava devotada.

Cheia de alegria sincera, a viúva de Cuza esqueceu o conforto da nobreza material, dedicando-se aos filhos de outras mães, ocupando-se com os mais subalternos afazes domésticos, para que seu filhinho tivesse o alimento. Mais tarde, quando a neve dos anos lhe alvejou os cabelos, ela foi presa como cristã, e conduzida a Roma, numa galera romana, juntamente com seu filho, na qualidade de serva. No ano 68, quando as perseguições ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espetáculos sucessivos do circo romano, uma velha discípula do Senhor, amarrada ao poste do martírio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.

Ante os apupos do povo, foram ordenadas as primeiras flagelações.–“Abjura!” – exclamava o executor das ordens imperiais, de olhar frio e cruel – A antiga discípula do Mestre contemplava o céu, sem uma palavra de negação ou queixa. Então o açoite foi aplicado sobre o rapaz seminu, que exclamou , entre lágrimas: “Repudia a Jesus, minha mãe!... Não vês que nos perdemos?! Abjura!... por mim que sou teu filho!...” – Pela primeira vez, dos olhos da mártir correm lágrimas abundantes. As rogativas do filho são espadas de sofrimento que lhe retalham o coração. – “Abjura! Abjura!...”

Joana ouve aqueles gritos, recordando a existência inteira. O lar risonho e feliz, as horas de ventura, os desgostos domésticos, seu filhinho querido, as emoções maternais, os fracassos do esposo, sua desesperação e sua morte, a viuvez, a desolação e as necessidades mais prementes... Em seguida, ante os apelos desesperados do seu filho, recordou que Maria também fora mãe e, vendo seu filho Jesus, crucificado no madeiro da infâmia, soubera conformar-se com os desígnios divinos. Acima de todas as recordações, como alegria suprema de sua existência, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: “Vai filha! Sê fiel a Deus!” – Então, possuída de força sobre-humana, a viúva de Cuza contemplou seu filho ensangüentado e, fixando no jovem um olhar profundo, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente: “Cala-te meu filho! Jesus era puro e não desdenhou o sacrifício. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transitórias do mundo, é preciso ser fiel a Deus!”

A esse tempo, com os aplausos delirantes do povo, os verdugos incendiaram as achas de lenha embebidas em resinas inflamáveis, em derredor dos postes onde eles estavam amarrados. Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhes os corpos. Joana de Cuza contemplou com serenidade a massa do povo que não lhe entendia o sacrifício. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito. Os algozes dos mártires cercaram-lhes de impropérios. Um dos verdugos disse a Joana: “O teu Jesus soube apenas ensinar-te a morrer?” – A velha discípula, reunindo as últimas resistências, teve ainda força para responder: “Não apenas a morrer, mas também a vos amar!...”

Nesse instante, ela faleceu... em seguida, sentiu que a mão consoladora do Mestre lhe tocava suavemente o ombro, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquecível, dizer: “Joana, tem bom ânimo!.. Eu aqui estou!...”



Bibliografia:
Evangelho de Lucas
Livro “Boa Nova” – (Espírito de Humberto de Campos)

Jc.
S.Luis, 28/4/2011

MARIA DE MAGDALA ( Madalena)

MARIA DE MAGDALA (Maria Madalena)

Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, para a casa de Lázaro. Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam à mesa. Então, entrou Maria de Magdala, e tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, muito precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos; e a casa encheu-se toda com o perfume do bálsamo. Mas Iscariotes, um dos seus apóstolos, disse: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” – Jesus então lhe disse: “Deixe-a; por que a molestais? Ela praticou uma boa ação para comigo. Porque os pobres sempre os têm convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes o bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado o Evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua”.

Tempos depois, Jesus seguiu para Jerusalém, onde foi preso, julgado, condenado, e foi levado para um lugar chamado Gólgota, onde o crucificaram. E estavam ali muitas mulheres; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galiléia, para o servirem; e entre elas estavam Maria mãe de Jesus, Maria de Magdala, Maria mãe de Tiago, a mulher de Zebedeu, e outras.

Após o sepultamento de Jesus e passado o sábado, Maria foi ao sepulcro e viu que a pedra que tapava a entrada do túmulo fora removida. Maria continuava junto ao túmulo e, enquanto chorava, olhou para o interior do túmulo e viu dois anjos. Então eles lhe perguntaram: “Mulher, por que choras?” – Ela lhes respondeu: “Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram”. E tendo dito isto, voltou-se e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. – Perguntou-lhe Jesus: “Mulher, por que choras?” Ela supondo ser o jardineiro respondeu: “Senhor, se tu tiraste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei”. Disse-lhe então Jesus: “Maria!” – Ela reconhecendo-o lhe disse em hebráico: “Rabôni” ( que quer dizer Mestre). Recomendou-lhe Jesus: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmãos, para dizer-lhes que eu ressuscitei e que se dirijam à Galiléia, e lá eles todos me verão”.

Ela foi á escolhida para anunciar a Imortalidade do seu Mestre, em razão da sua conversão, da sua dedicação e do seu grande amor ao Mestre, que modificou a sua existência de pecadora.

= x =

Maria de Magdala ouvira as pregações do Evangelho do Reino, não longe da Vila principesca onde vivia entregue aos prazeres, em companhia de patrícios romanos, e tornara-se de admiração profunda pelo Mestre.

Que novo amor era aquele, apregoado aos pescadores singelos por lábios tão
divinos? Até ali, caminhara ela sobre as rosas rubras do desejo, embriagando-se
com o vinho de condenáveis prazeres. No entanto, seu coração estava sequioso e

em desalento. Jovem e formosa emancipara-se dos preconceitos de sua raça; sua beleza lhe escravizara aos caprichos de mulher, os mais ardentes admiradores; mas seu espírito tinha fome de amor. O profeta nazareno havia plantado em sua alma novos pensamentos. Depois que lhe ouvira a palavra, observou que as facilidades da existência lhe traziam agora um tédio mortal ao espírito sensível. As músicas voluptuosas já não encontravam eco em seu íntimo; os enfeites romanos de sua habitação se tornaram sem graça e tristes. Maria chorou longamente, embora não compreendesse ainda o que queria o profeta desconhecido. Entretanto, suas palavras pareciam ressoar-lhe nas fibras mais sensíveis de mulher. Jesus chamava as pessoas para uma vida nova.

Decorrida uma noite de grandes meditações, e antes do banquete em casa de Lázaro, onde ela ungiria publicamente os pés de Jesus, nasceu o dia e ela embarcou numa barca que conduziu a pecadora até Cafarnaum. Dispusera-se a procurar o Mestre, após muitas hesitações. Como a receberia o Senhor, na residência de Simão Pedro? Seus conterrâneos não lhe haviam perdoado a vida de prazeres e o abandono do lar paterno. Para eles, ela era a mulher perdida que teria de encontrar a lapidação na praça pública. Sua consciência, porém, lhe pedia que fosse falar com Jesus, que tratava a multidão com especial carinho. Que lhe valiam as jóias, as flores raras, os banquetes luxuosos, se, ao fim de tudo isso, conservava a sua sede de amor!... Envolvida por esses pensamentos profundos, Maria de Magdala penetrou o umbral da humilde residência de Simão Pedro, onde Jesus parecia esperá-la, tal a bondade com que a recebeu num grande sorriso. A recém-chegada sentou-se com indefinível emoção a estrangular-lhe o peito e muito respeito.

Feita as primeiras saudações e vencendo as suas indecisões, Maria se pronunciou: “Senhor, ouvi a vossa palavra consoladora e venho ao vosso encontro!... Tendes a clarividência do céu e podeis adivinhar como tenho vivido! Sou uma filha do pecado; todos me condenam. Entretanto Mestre observe como tenho sede do verdadeiro amor!... Minha existência como todos os prazeres, tem sido estéril e amargurada...” As lágrimas lhe borbulhavam dos olhos, enquanto Jesus a contemplava, com bondade infinita. Ela então continuou: “Ouvi o vosso amoroso convite ao Evangelho! Desejava ser das vossas ovelhas; mas será que Deus me aceitaria?” – O profeta nazareno fitou-a, enternecido, sondando as profundezas do seu pensamento, e respondeu bondoso: “Maria, levanta os olhos para o céu e regozija-te, porque escutaste a Boa Nova do Reino e Deus te abençoa as alegrias! Acaso poderias pensar que alguém no mundo estivesse condenado ao pecado eterno? Onde então, o amor de Nosso Pai? Nunca vistes a primavera dar flores sobre uma casa em ruínas? As ruínas são as criaturas humanas; porém as flores são as esperanças em Deus. Sentes hoje esse novo Sol a iluminar-te o destino! Caminha agora, sob a sua luz, porque o amor cobre a multidão dos pecados”.

A pecadora de Magdala escutava o Mestre bebendo-lhe as palavras, porque nenhum homem havia falado assim à sua alma. Enlevada por essas palavras confortadoras e ouvindo as referências de Jesus ao amor, Maria comentou suavemente: “No entanto Senhor tenho amado e tenho sede de amor!...” Jesus lhe redargüiu: “Sim, tua sede é real. O mundo viciou todas as fontes de redenção e é preciso que compreendas que em suas sendas a virtude tem que marchar por uma porta estreita. A virtude no mundo foi transformada na porta larga da conveniência. O amor sincero não exige satisfações passageiras, que se extinguem no mundo com a primeira ilusão; trabalha sempre, sem amargura e ambição, com o júbilo do sacrifício. Só o amor que renuncia sabe caminhar para a vida suprema!...” Maria o escutava, embevecida e o interrogou atenciosamente: “Só o amor pelo sacrifício poderá saciar a sede do coração?” Jesus teve um gesto afirmativo e continuou: “Somente o sacrifício contem o divino mistério da vida. Na tua condição de mulher, já pensaste no que seria o mundo sem as mães extremadas no silêncio e no sacrifício?” Ouvindo isso, Maria começou a chorar e a sentir no íntimo o deserto da mulher sem filhos. Por fim, exclamou: “Desgraçada de mim, Senhor, que não posso ser mãe!...” Então o Mestre brandamente acrescentou: “E, qual das mães será maior aos olhos de Deus? A que se devotou somente aos seus filhos de carne, ou as que se consagraram por amor aos filhos das outras mães?”

Aquela interrogação pareceu despertá-la para meditações profundas. Maria sentiu-se amparada por uma energia interior diferente, que até então desconhecera. Jesus lhe honrava o espírito, convidando-a a ser mãe de seus irmãos em humanidade. Experimentando grande felicidade em seu íntimo, contemplou o Mestre com os olhos cheios de lágrimas e, no êxtase de sua alegria, murmurou comovida: “Senhor, doravante renunciarei a todos os prazeres transitórios do mundo, para adquirir o amor celestial que me ensinastes!... Acolherei como filhas as minhas irmãs no sofrimento e procurarei os infortunados para aliviar-lhes as feridas do coração.” Nesse instante, Simão Pedro passou pelo aposento e lançou um olhar de desprezo, e ela, já receosa de um dia perder a convivência do Mestre, perguntou: “Senhor, quando partirdes deste mundo, como ficaremos?” Jesus percebendo o motivo e o alcance da sua palavra, esclareceu: “Certamente que partirei, mas estaremos eternamente reunidos em espírito. Quanto ao futuro, é necessário que cada um tome sua cruz, em busca da redenção. Vai, Maria!... Sacrifica-te e ama sempre. Longo é o caminho, difícil á jornada, estreita a porta; mas a fé remove os obstáculos... Nada temas: é preciso crer e trabalhar!”

Mais tarde, depois da sua gloriosa visão do Mestre ressuscitado, Maria Madalena voltou de Jerusalém para a Galiléia, seguindo os passos dos companheiros queridos. Após algum tempo, os apóstolos começaram a abandonar a região, a serviço da Boa Nova. Ao partir os dois últimos companheiros para Jerusalém, Maria temendo a solidão, rogou a eles que lhe permitissem acompanhá-los e lhe foi negado o seu desejo. Temiam eles, o pretérito da pecadora e não confiam nela. Maria compreendeu, mas lembrou-se de Mestre e resignou-se. Humilde e sozinha resistiu as todas as propostas condenáveis e, sem recursos para viver, trabalhou pela própria sobrevivência, em Magdala e Dalmanuta. De vez em quando ia às
sinagogas, desejosa de relembrar as lições de Jesus. Por vezes, chorava de saudade, quando passeava no silêncio da praia, sob as árvores recordando a presença do Mestre.

Certo dia, um grupo de leprosos veio a Dalmanuta, cansados e tristes, em abandono, perguntando por Jesus, e todas as pessoas lhe deram as costas. Maria foi ter com eles e, sentindo-se com amplo direito de empregar sua liberdade, reuniu-os sob as árvores da praia e lhes transmitiu as palavras de Jesus, enchendo-lhes os corações com as claridades do Evangelho. Maria sentiu tamanha alegria no semblante dos infortunados, em face das suas palavras, e, por motivo das autoridades locais, terem ordenado a expulsão dos enfermos, Maria resolveu seguir para Jerusalém e eles seguiram em sua companhia. Chegados à cidade, foram conduzidos ao vale dos leprosos, onde Madalena penetrou com espontaneidade de coração. Seu espírito recordava as lições do Mestre e uma coragem se apossou de sua alma. Dali em diante, todas as tardes a mensageira do Evangelho reunia os seus novos amigos e lhe passava os ensinos de Jesus. Os doentes arrastavam-se até junto dela e lhe beijavam a túnica singela, e ela, lembrando o amor do Mestre, tomava-os em seus braços fraternos e carinhosos. Em breve tempo, sua pele apresentava, igualmente, manchas violáceas. Ela compreendeu a sua nova situação e recordou que o Mestre lhe dissera que somente sabiam viver os que sabiam imolar-se. Os seus moribundos esperavam a morte com um sorriso ditoso nos lábios. Nesse trabalho, muito tempo passou.

Passado alguns anos, sentindo-se no termo de sua tarefa meritória, Maria Madalena desejou rever antigas afeições de seu círculo pessoal, que se encontravam em Éfeso. Lá estavam João e Maria, mãe de Jesus, além de outros companheiros cristãos. Compreendendo que suas últimas dores terrestres estavam próximas; então decidiu pôr em prática seu sincero desejo. Nas despedidas, seus doentes vinham suplicar-lhe os derradeiros conselhos e recomendações, e ela envolvendo-os no seu carinho, lhes dizia: “Jesus deseja que nos amemos intensamente uns aos outros e que participemos das divinas esperanças, na mais extrema lealdade a Deus!...” Então os doentes lhe trouxeram o fruto das esmolas e as crianças vinham beijar-lhe as mãos. Em seguida a ex-pecadora abandonou o vale, e para chegar até o seu destino, percorreu muito tempo, e para isso, recorreu à caridade pública, sofrendo penosas humilhações e submetendo-se a sacrifícios. Observando as feridas pustulentas que substituíram sua antiga beleza, alegrava-se em reconhecer que seu espírito não tinha motivo para lamentações; Jesus a esperava e ela era fiel.

Maria achou-se um dia, às portas da cidade; mas um abatimento lhe dominava os centros de força física, no justo momento, quando as casas de Éfeso se lhe aparecia á vista, seu corpo alquebrado negou-se a caminhar. Foi quando uma modesta família de cristãos do subúrbio recolheu-a caridosamente a uma tenda humilde. Madalena pôde ainda rever amizades bem caras, consoante seus desejos, e por muitos dias de sofrimentos, debateu-se entre a vida e a morte. Uma noite, atingiram o auge as suas dores, porém sua alma estava iluminada por brandas reminiscências e, não obstante seus olhos se acharem selados, com os olhos da imaginação via o lago querido, os companheiros de fé, o Mestre bem-amado. De minuto em minuto, ouvia-se-lhe um gemido, enquanto os irmãos de crença lhe rodeavam o leito, com preces sinceras de seus corações amigos e desvelados.

Em dado momento, observou-se que seu peito não mais arfava. Maria, no entanto, experimentava consoladora sensação de paz. Sentia-se sob as árvores da Galiléia e esperava o Mestre. As aves cantavam nos ramos próximos e as ondas sussurrantes vinham beijar-lhe os pés. Foi quando ela viu Jesus aproximar-se, mais belo que nunca. Seu olhar tinha o reflexo do céu e o semblante trazia um júbilo indefinível. O Mestre estendeu-lhe as mãos e ela se prosternou, respeitosamente exclamando, como antigamente: “Meu Senhor!...” E Jesus recolhendo-a brandamente nos braços, lhe disse suavemente: “Maria, já passaste a porta estreita!... Amaste muito! Vem comigo... “



Bibliografia:
Evangelhos de João, Marcos e Mateus
Livro “Boa Nova” (Humberto de Campos, espírito)


Jc.
S.Luis, 25/4/2011

MARIA DE NAZARÉ

MARIA DE NAZARÉ

O nascimento de Jesus, foi assim: No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, à uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria. E, entrando o anjo onde ela estava lhe disse: “Alegra-te muito favorecida! O senhor é contigo”. Ela, porém, ao ouvir estas palavras, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significava esta saudação. Mas o anjo lhe disse: “Maria, não temas; por que achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem deve ser dado o de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo”. E ela, antes de ter coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo.

Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto pensava nessas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo-lhe: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo”. Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel” (que quer dizer: Deus conosco).

Anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando ele atingiu doze anos de idade, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Terminados os dias de festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém sem que seus pais o soubessem. Sentindo a sua falta, passaram a procurá-lo e não o encontrando, voltaram a Jerusalém à sua procura. Três dias depois, ele estava no templo, assentado entre os doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Logo que seus pais o viram, sua mãe lhe disse: “Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estávamos à tua procura.” Ele lhes respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” – Eles, porém não compreenderam as palavras que lhes dissera e desceram para Nazaré.

Alguns anos depois, houve um casamento em Caná da Galiléia e achava-se ali Maria, a mãe de Jesus e ele que também foi convidado. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm mais vinho”. Mas Jesus lhe disse: “Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada á minha hora”. Então, ela falou aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser”. E Ele, atendendo sua mãe, fez a transformação da água em delicioso vinho.

Em outra ocasião, Jesus falava ao povo, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. E alguém lhe disse: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar-te”. Ele, porém, respondeu ao que lhe trouxera o aviso: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E, estendendo a mão para os discípulos, disse-lhes: ”Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai Celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe”.

Junto da cruz, o vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indelével impressão. Com o pensamento ansioso e torturado, olhos fixos no madeiro das perfídias humanas, observando o filho que ali estava na hora extrema; sua lembrança regredia ao passado em recordações. Lembrava as circunstâncias maravilhosas em que o nascimento de Jesus lhe fora anunciado, a amizade de Izabel, sua prima, as profecias do velho Simeão, reconhecendo que a assistência de Deus se tornara incontestável nos menores detalhes de sua existência. Naquele instante supremo,
revia a manjedoura, na sua beleza agreste, sentindo que a Natureza parecia desejar redizer aos seus ouvidos o cântico de glória daquela noite inolvidável. Através do véu espesso das lágrimas, repassou, uma por uma, as cenas da infância do filho estremecido. Nas menores coisas, reconhecia a intervenção da Providência Celestial; entretanto, naquela hora, seu pensamento vagava também pelo vasto mar das mais aflitivas interrogações. Que fizera Jesus por merecer tão amargas penas? Não o vira crescer de sentimentos imaculados, sob o calor de seu coração? Desde os mais tenros anos, quando o conduzia à fonte tradicional de Nazaré, observava o carinho fraterno que dispensava a todas as criaturas. Frequentemente, ela ia buscá-lo nas ruas, onde a sua palavra carinhosa consolava os transeuntes desamparados e tristes. Viandantes misérrimos vinham a sua casa modesta louvar o filhinho idolatrado, que sabia distribuir as bênçãos do Céu. Com que enlevo recebia os hóspedes inesperados que suas mãos minúsculas conduziam à carpintaria de José!...

Lembrava-se bem de que, um dia, a divina criança guiara a casa, dois malfeitores publicamente reconhecidos como ladrões do vale de Mzhep. E era de ver-se a amorosa solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos desconhecidos, como se fossem seus irmãos. Muitas vezes, ela comentara a excelência daquela virtude santificada, receando pelo futuro de seu adorado filhinho. Depois do caricioso ambiente doméstico, era a missão celestial, dilatando-se em colheita de frutos maravilhosos. Eram, paralíticos que retomavam os movimentos, cegos que se reintegravam nos sagrados dons da vista, criaturas famintas de luz e amor que se saciavam na sua lição de infinita bondade. Que profundos desígnios haviam conduzido seu filho adorado à cruz do suplício? Uma voz amiga lhe falava ao espírito, dizendo das determinações insondáveis e justas de Deus, que precisavam ser aceitas para a redenção divina das criaturas. Seu coração rebentava em tempestades de lágrimas irreprimíveis; contudo, no santuário da sua consciência, repetia a sua afirmação de sincera humildade: “Faça-se na escrava a vontade do Senhor!”

Voltando a realidade, no Monte Calvário, em meio de algumas mulheres compadecidas, que lhe acompanhavam o angustioso transe, Maria sentiu que alguém lhe pousara as mãos, de leve, sobre os ombros. Virando-se, deparou com a figura de João que, vencendo a pusilanimidade criminosa em que haviam mergulhado os demais companheiros, lhe estendia os braços amorosos e reconhecidos. Silenciosamente, o filho de Zebedeu abraçou-se àquele sofredor coração maternal. Maria deixou-se enlaçar pelo apóstolo querido e ambos, ao pé do madeiro, em gesto súplice, buscaram ansiosamente a luz daqueles olhos misericordiosos, no cúmulo dos tormentos. Foi aí que a fronte do divino supliciado se moveu vagarosamente, revelando perceber a ansiedade daquelas duas almas em extremo desalento. – “Meu filho! Meu amado filho!...” – exclamou a mãe, em aflição diante da serenidade daquele olhar de melancolia intraduzível. Jesus pareceu meditar no auge das suas dores, mas, como se quisesse demonstrar, no instante derradeiro, a grandeza de sua coragem e a sua perfeita comunhão com Deus, replicou com significativo movimento dos olhos lhe disse: - “Mãe, eis aí teu
filho!... ” – E dirigindo-se, de modo especial, com um leve aceno ao apóstolo, disse-lhe: “Filho, eis aí tua mãe!” – Desse instante em diante, o apóstolo a tomou para sua casa.

Maria envolveu-se no véu de seu pranto doloroso, e o evangelista compreendeu
que o Mestre, na sua derradeira lição, ensinava que o amor universal era o sublime coroamento de sua obra. Entendeu que no futuro, a claridade do Reino de Deus, revelaria aos seres humanos, a necessidade da cessação de todo egoísmo e que no santuário de cada coração, deveria existir a mais sublime e abundante cota de amor, não só para o círculo familiar, como também para todos os necessitados do mundo, e que no templo de cada habitação deveria permanecer a fraternidade real, para que a assistência recíproca se praticasse na Terra, sem serem precisos os edifícios exteriores, consagrados a uma solidariedade claudicante.

Por muito tempo, conservaram-se ainda ali, em preces silenciosas, até que o Mestre foi arrancado à cruz, antes que a tempestade mergulhasse a paisagem castigada de Jerusalém num dilúvio de sombras. . .

Após a partida de Jesus, e a separação dos apóstolos que se dispersaram por lugares diferentes, para a difusão da Boa Nova, Maria retirou-se para a Batanéia, onde alguns parentes mais próximos a esperavam com especial carinho. O tempo continuou a passar, silencioso e triste, para a angustiada saudade de seu coração. Tocada por grandes dissabores, observou que, em tempo rápido, as lembranças do filho amado se convertiam em ásperas discussões, entre os seus seguidores. Na Batanéia, pretendia-se manter certa aristocracia espiritual, por efeito dos laços sangüíneos que ali a prendiam, em virtude dos elos que a ligavam a José. Em Jerusalém, digladiavam-se os cristãos e os judeus, com veemência. Na Galiléia, os antigos cenáculos simples e amoráveis da Natureza estavam tristes e desertos.

Para aquela mãe amorosa, cuja alma digna observava que o vinho generoso de Caná se transformara no vinagre do martírio, o tempo assinalava sempre uma saudade maior. Sua existência era uma devoção incessante ao rosário imenso da saudade, às lembranças mais queridas. Relembrava o seu Jesus pequenino, como naquela noite de beleza prodigiosa, em que o recebera nos braços maternais, iluminado pelo mais doce mistério. Jesus na manjedoura, cercado pelos animais, naquele ambiente de muita luz e paz, e do primeiro beijo que deu, feito de muito carinho? Nazaré lhe voltava à imaginação, com as suas paisagens de felicidade e luz. Parecia vê-lo em suas recordações felizes e repletas de esperança, Jesus lhe prometendo o júbilo de sua presença e participando das suas agradáveis recordações.
A esse tempo, João, o filho de Zebedeu, tendo presentes as observações que o Mestre lhe fizera da cruz, surgiu na Batanéia, oferecendo àquele espírito saudoso de mãe, o refúgio amoroso da sua proteção. Maria aceitou o oferecimento com imensa satisfação. E João lhe contou a sua nova situação. Instalara-se definitivamente em Éfeso, onde as idéias cristãs ganhavam terreno nas almas devotadas e sinceras. Não esquecera as recomendações do Senhor e, no íntimo, guardava aquele título de filiação como alta expressão de amor fraternal para com aquela que recebera o Mestre nos braços veneráveis e carinhosos. Ele leva-la-ia consigo, e ambos andariam na mesma associação de interesses espirituais. Seria seu filho desvelado, enquanto receberia dela a ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Explicava ele, que demorara a vir, porque lhe faltava uma choupana, onde se pudessem abrigar; entretanto, lhe fora doado uma casinha pobre, ao sul de
Éfeso, num promontório, de onde se avistava o mar. Estabeleceriam ali um pouso e refúgio aos desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os espíritos de boa-vontade e, como mãe e filho, iniciariam uma nova era de amor fraternal. Maria aceitou alegremente. Instalaram-se no seio amigo da Natureza e ao cabo de algumas semanas, aquele local se transformou num ponto de assembléias adoráveis, onde as recordações de Jesus eram cultuadas por pessoas humildes.

A notícia de que Maria se encontrava agora, entre eles, espalhara um clarão de esperança por todos os sofredores. Enquanto João pregava na cidade, ela atendia no pobre santuário doméstico, aos que a procuravam exibindo-lhe suas doenças e necessidades. Essa choupana passou então a ser conhecida pelo nome de “Casa da Santíssima”. O fato tivera origem quando um leproso, depois de aliviado em suas chagas, lhe beijou as mãos, reconhecidamente e exclamou: “Senhora, sois a mãe de nosso Mestre e nossa Mãe Santíssima!” Esse título criou raízes em todos os espíritos. E João consolidou o conceito, acentuando que o mundo lhe seria sempre grato, pois fora por seu intermédio que o Emissário de Deus pudera vir ao mundo para suavizar os sofrimentos. Na sua humildade, Maria se esquivava às homenagens, mas aquela confiança filial era para sua alma um delicioso tesouro para seu coração. Diariamente, acorriam os desamparados, suplicando a sua assistência espiritual. – “Minha mãe – dizia um dos mais aflitos – como poderei vencer as minhas dificuldades? Sinto-me abandonada na estrada da vida...” – Maria lhe enviava um olhar de bondade e dizia: “Isso também passa! Só o amor de Deus é bastante forte para nunca passar, como eterna realização de amor celestial”. Seus conselhos abrandavam a dor dos mais desesperados, desanuviando o pensamento obscuro dos mais acabrunhados. O tempo foi passando e a velhice não lhe acarretara nem cansaços nem amarguras. A certeza da proteção divina lhe proporcionava ininterrupto consolo.

De súbito, recebeu notícias de que um período de dolorosas perseguições se havia iniciado para todos os que fossem adeptos da doutrina do seu filho Jesus. Alguns cristãos fugidos de Roma traziam a Éfeso, as tristes informações. Em obediência às ordens, os cristãos eram presos, destruídos os seus lares e jogados nas prisões, e nas festas públicas, seus corpos eram dados como alimento a feras insaciáveis, em horrendos espetáculos. Maria entregou-se às orações, como de costume, pedindo a Deus por todos aqueles que estavam em angústias e sofrimentos por amor ao seu filho. Assim, enlevada, Maria viu aproximar-se o vulto de um pedinte. – “Minha mãe, venho fazer-te companhia e receber tua benção”, exclamou o recém-chegado. Ela o convidou a entrar, impressionada com aquela voz que inspirava profunda simpatia. O pedinte lhe falou do céu, confortando-a delicadamente. Ela então pensou que mendigo seria aquele que lhe acalmava as dores secretas da alma; nenhum lhe surgira até então para dar; eles sempre vinham para pedir. Onde ouvira noutros tempos aquela voz meiga e carinhosa? – Seus olhos se umedeceram de ventura, sem saber explicar a razão de sua emoção. – Foi quando o visitante anônimo lhe estendeu as mãos generosas e lhe falou com profundo amor: “Minha mãe, vem aos meus braços!” Nesse instante ela fitou as mãos que se lhe ofereciam e viu nelas duas chagas, como as que seu filho recebera na cruz e, imediatamente, grande alegria lhe tomou o espírito e ela exclamou: “Meu filho! Meu filho! O que te fizeram!...” Ele, beijando-lhe as mãos, disse em tom carinhoso: “Sim, minha mãe, sou eu!... Venho buscar-te, pois meu Pai quer que seja no meu reino a Rainha dos Anjos...” – No dia seguinte, João e dois outros humildes cristãos, que tinham chegado, assistiam aos últimos instantes daquela que lhes era a devotada Mãe. Maria já não falava, e numa expressão de serenidade, ainda esperou a ruptura dos últimos laços que a prendiam à existência material.

Experimentando a sensação de estar se afastando do mundo, desejou rever a Galiléia com os seus sítios preferidos. Bastou a sua vontade para que ela fosse conduzida à região do lago de Genesaré. Aquelas águas mansas, filha do rio Jordão, haviam sido as cordas sonoras do cântico evangélico. Maria se lembrou dos perseguidos pela crueldade do mundo e desejou abraçar os que haviam ficado no vale das sombras, à espera das claridades do Reino de Deus. Em poucos instantes ela penetrou os sombrios cárceres do Esquilino, em Roma, onde centenas de cristãos sofriam padecimentos atrozes. Maria se aproximou de um por um, participando de suas angústias e orou com sentimento e confiança. Os condenados experimentaram no coração um consolo desconhecido. Maria havia aliviado seus corações e, antes de partir, desejou deixar-lhes nos espíritos abatidos uma lembrança perene. O que possuía ela para lhes dar? Deveria suplicar para Deus, a liberdade para eles? Mas Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave e todo fardo seria leve. Então ela rogou que lhe dessem a possibilidade de deixar entre aqueles sofredores a força da alegria.

Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto sofrido e triste, lhe disse ao ouvido: “Canta, minha filha” Tenha bom ânimo!... Vamos converter as dores da Terra, em alegrias para o Céu...” a triste prisioneira não soube compreender o porquê da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração e ela ignorando a razão de sua súbita alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas, transformando suas amarguras em consoladora esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que também estavam presos nos cárceres, aguardando o glorioso testemunho de cristãos, seguidores de Jesus.
Em seguida, a bendita entre as mulheres foi conduzida ao Reino do Mestre e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os discípulos de Jesus têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua alegria, guardando a suave lembrança da Mãe Santíssima. Por essa razão, irmãos queridos, quando ouvirdes o cântico nos templos das diversas famílias religiosas, não vos esqueceis de fazer silêncio no seu coração, fazendo uma oração para receber da Rosa Mística de Nazaré, o seu perfume e a sua proteção!...


Bibliografia:
Evangelhos de João, Lucas e Mateus
‘Livro “Boa Nova” (Espírito de Humberto de Campos)


Jc.
S.Luis, 23/4/2011