sexta-feira, 19 de junho de 2015

ÁLCOOL E SEUS DEPENDENTES




 ÁLCOOL, E  SEUS  DEPENDENTES
Numa sociedade casa vez mais induzida a consumir bebida alcoólica, jovens e especialistas explicam o que é preciso fazer para combater esse vício, que não só prejudica quem bebe como também promove a desagregação familiar. O consumo cada vez mais precoce e frequente de bebida alcoólica ameaça á saúde da maioria dos jovens brasileiros.
“Em breve, o Brasil pode ter uma geração de jovens dependentes de bebidas alcoólicas”. Esse alerta é da presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), doutora Ana Cecília Marques. A médica explica que o contato dos adolescentes com o álcool, e o consumo excessivo está mudando a realidade da juventude brasileira.
“Hoje temos jovens que já buscam tratamento contra a dependência de álcool aos 18 anos; antes isso só acontecia aos 40 anos”. Mudou tudo no entorno dos jovens: ele tem a pressão dos amigos para beber; o preço barato do produto, a publicidade, o acesso fácil, a lei que não é cumprida, a influência dos familiares e, principalmente, a falta de uma orientação. Dados do Ministério da Saúde mostram que 2.420 pessoas entre 15 e 18 anos morreram em 2012, vítimas de “transtornos por causa do álcool”.
Ana Cecília destaca que o risco de desenvolver a dependência do álcool é bem maior entre as pessoas de até 24 anos de idade, pois o cérebro ainda não está totalmente formado nessa fase. “No início, alguns jovens ficam mais relaxados e eufóricos com a primeira dose. Se esse efeito for bem registrado no cérebro, o jovem aciona o momento da segunda dose. Então o jovem toma outra dose e aí o cérebro vai ter o efeito real da bebida, que é anestésico, pois o álcool é uma droga depressiva do sistema nervoso cerebral”.
O álcool pode causar a falta de coordenação motora, diminuição dos reflexos, confusão, lapsos de memória, vômitos, instabilidade emocional, dificuldade para entender o que se passa ao redor, desmaios, coma e morte. Por essas razões, muitos jovens usuários, se envolvem em brigas, situações perigosas, como dirigir alcoolizados participando de rachas e são induzidos a fazer sexo. O consumo frequente aumenta a tolerância, o que obriga o usuário a beber cada vez mais para ter o mesmo efeito.
Além da influência de amigos e familiares, a publicidade é outro fator que estimula o consumo de bebidas alcoólicas pelos jovens. Isso acontece porque muitas propagandas relacionam ás bebidas á alegria, à juventude, ao sucesso profissional, ao encontro de amigos, à praia, aos esportes, além de explorar a sexualidade.  “Estudos mostram que a influência da publicidade de bebidas alcoólicas é muito maior entre os jovens, que ainda não definiram os produtos de que mais gostam”.
O jovem experimenta as bebidas alcoólicas na passagem da puberdade para a adolescência, por curiosidade ou influência de outros jovens. “A propaganda ajuda a despertar essa curiosidade”, diz a médica Ana Cecília Marques, acrescentando ainda que muitas crianças pelo estímulo da propaganda, afirmam em pesquisas que vão consumir álcool no futuro.
O advogado Felipe Rudi Parize, autor do artigo “Os limites para a publicidade de bebidas alcoólicas à luz do Direito contemporâneo brasileiro”, aponta que o principal problema é que a propaganda de bebidas de baixo teor alcoólico – como cervejas e ices – não sofre limitação de horário para exibição no rádio e na televisão. “A Lei 9294/96, só definiu horário para a publicidade de bebidas com teor alcoólico maior que 13 graus Gay Lussac, ou seja, cervejas, vinhos e até cachaças ficam de fora. Além dessa lei, o País conta com o Código Brasileiro de Auto Regulamentação Publicitária, que apresenta um sistema completo, mas não tem poder de coerção para as empresas que o descumprem”.  Parize explica ainda, que já existe um projeto de lei que pretende incluir as bebidas com graduação alcoólica a partir de 0,5 grau Gay Lussac nas restrições de publicidade, mas a iniciativa enfrenta pressões da indústria cervejeira. “O projeto 2.733/08 está em regime de prioridade de tramitação, mas há empenho para que haja alteração. O problema é que há um lobby muito grande da indústria cervejeira para que não haja limitação de horário, porque  isso vai gerar impacto no consumo”.
A presença de bebidas alcoólicas em confraternizações, festas e dentro dos lares leva muitas pessoas a acreditar que as bebidas não representam perigo à saúde. Por isso, um dos caminhos para evitar problemas morais, de saúde e de famílias está na informação. Os pais não devem beber em casa para não dar o exemplo negativo aos filhos. Devem  orientá-los sobre os males das bebidas alcoólicas para a saúde. “Se os pais ficarem omissos sobre o assunto, o problema pode aparecer dentro de casa”. Outro passo importante começa com a avaliação sobre os próprios hábitos.  “Se a busca do equilíbrio está presente em temas como alimentação, trabalho, lazer e família, o mesmo deveria ser aplicado ao consumo de bebidas alcoólicas, que em excesso faz mal e pode até matar; e com o álcool não é diferente”, diz a médica Ana Marques.
Tomei conhecimento, a muitos anos, de uma família cujo pai era funcionário da Saúde e também era músico. Nos fins de semana ele saia para as festas e bebia a ponto de cair na rua e dormir nas sarjetas. Os amigos o levantavam e o levavam para a sua casa. Após ele ficar sóbrio, ameaçava a esposa querendo espancá-la e aos filhos. Na esposa ele nunca bateu porque ela lhe avisou: - No dia que você me bater e for dormir esse será o dia do seu funeral. Ele ficou receoso dela fazer o que dizia porque ela era determinada, e passou somente a insultá-la, e aos filhos aplicava surras, até que faleceu por causa da bebida alcoólica.

Outro exemplo, eu participei como acompanhante. Eu era menor e fui morar uns tempos com a minha irmã. Ela era casada e seu esposo bebia e eles brigavam constantemente por causa da bebida e ele a insultava. Quando sóbrio ele era uma pessoa normal, mas quando bebia se transformava completamente, abandonando o trabalho que gerenciava e ela era quem assumia a função. De tanto beber e querer matar a esposa foi acorrentado e levado para uma Colônia de Psicopatas, onde ficou internado, por várias vezes. Quando a esposa ia visitá-lo, ele implorava para ela tirá-lo da Colônia, porque á noite, quando o portão do pavilhão era fechado, os outros que eram loucos, brigavam entre si, e o ambiente era como se fosse o inferno. Ele prometia que não ia beber mais e suplicava, e ela que ainda o amava, atendia o seu pedido. Essa situação aconteceu umas quatro vezes, sendo que na última, ele internado, passou a sentir alguns problemas que o estava levando à morte. Ele suplicou uma vez mais e ela o retirou da Colônia, e dessa vez, ele achando que se fosse internado novamente morreria, finalmente largou a bebida alcoólica, mas a bebida já o havia destruído por dentro e logo depois veio a falecer.

Ainda sobre o assunto, conheci recentemente, um casal com um filho, onde o pai começou a beber e já estava ficando viciado. A esposa lhe perguntou: “Você vai continuar bebendo? Se você vai continuar, fique logo sabendo que se for hospitalizado por causa da bebida alcoólica, não espere que eu vá cuidar de você, porque você vai ficar sozinho. Você mesmo procurou o problema. Eu vou cuidar da minha vida e do nosso filho que precisa de mim...” O esposo não gostou da resposta e resolveu parar de beber, porque sabia que sua mulher faria mesmo o que afirmava.
Com respeito ao assunto temos alguns depoimentos de jovens.  Disse uma jovem: “Em festa de faculdade, a galera vai para beber e influenciar os outros. Nos jogos universitários tem festa open bar e a bebida alcoólica é liberada para todos”. Outro jovem disse: “Fui a uma balada que era open de tequila. Bebi uma, duas doses, mas não senti nada. Então tomei cinco shots de uma vez e depois apaguei”.  Outra jovem narra: “Na época do ensino médio, alguns alunos levavam bebida alcoólica para a escola, quando tinha festa, escondida em garrafa de refrigerante. Lembro que eles insistiam para que eu bebesse, e diziam que não ia ter problemas, porque era uma brincadeira. Eu não bebia e me afastava de quem usava drogas. Resistir é difícil e para muitos que ainda não tem opinião formada nem personalidade, aceitam beber para entrar no grupo”. Outro afirmou: “Quando saio à noite, eu bebo para ficar doidão. A bebida me dá um “grau”. Acho que a bebida está ligada ao prazer”. Uma jovem informou: “Quando você fica muito bêbeda, você vomita, passa mal e quase fica inconsciente. Depois que você volta a ficar sóbria, você percebe que passou por situações perigosas”. Outra jovem disse: “Sabe aquelas coisas que você quer fazer, mas não deve? Com a bebida você fica desinibido e faz. Mas depois da euforia você se arrepende porque sempre faz uma besteira e passa um vexame”. Um rapaz informou: “Acho que a sociedade induz a gente a beber. E também tem o preço. Você vai num bar e o suco de fruta custa 8 reais. A cerveja é mais barata e dá para dividir”. Outra jovem disse: “Antes dos 18 anos, eu tinha RG falso e nunca tive dificuldade de comprar bebidas. Já bebi a ponto de não saber o que me aconteceu”.  Finalizando, outro depoimento de um jovem: “Minha família bebe bastante. Temos sempre bebidas alcoólicas na geladeira e eu bebo muito, principalmente na sexta-feira e não posso jogar bola no dia seguinte. Troquei o futebol pela bebida”.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, três milhões e trezentas mil pessoas morreram no mundo por causa do alcoolismo em 2012. Segundo a mesma organização, no Brasil, 69.440 brasileiros morreram por complicações decorrentes do consumo de álcool em 2012.
Não faça parte dessa estatística. Você não precisa imitar ninguém nem ser sugestionado para beber para ficar feliz. Não siga o exemplo negativo de outras pessoas. A bebida não trás felicidade, mas sim faz da pessoa um alcoólatra e prejudica a saúde.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Fonte:
Jornal “Folha Universal”- 4/2015
+ Acréscimos e modificações.

Jc.
São Luís, 27/4/2015