terça-feira, 1 de março de 2016

EVOLUÇÃO HUMANA




 Partindo do princípio de que todos nós tivemos várias encarnações e que o ser humano  é constituído de  Espírito, Perispírito  e  Corpo Físico, na classificação kardequiana,  poderemos realizar uma série de observações sobre as heranças palingenésicas.
Sabemos que o Espírito é um foco de inteligência que possui, ao seu redor, um corpo energético de características eletromagnéticas, conhecido como perispírito. É através do perispírito que o espírito se prende ao corpo físico, visto que apresenta uma estrutura vibratória intermediária: nem tão sutil como o espírito e nem tão condensada como a matéria orgânica. Serve ele, portanto, de elo que liga as duas partes e se caracteriza como um corpo de forma complexa, porque possui campos de força que obedecem aos comandos do espírito que os repassa  para a vestimenta física, quando de sua união com a mesma.
O vocábulo espírito designa o princípio inteligente individualizado. O espírito é o centro da vontade e a fonte geradora dos todos os comandos que chegam ao perispírito sob as formas mais diversas possíveis. É no espírito que se encontram o inconsciente puro, o inconsciente passado e o inconsciente atual. Essas zonas do espírito são capazes de regular os eventos psíquicos  e influenciar toda a existência de relações da pessoa.
Pitágoras (570 a 500 a.c.) já afirmava que “a alma é a verdadeira substância distinta do corpo, ao qual preexiste e no qual se encarna”. O pai da filosofia estava adiante de seu tempo, pois já separava a alma do corpo e admitia a imortalidade da alma e da reencarnação.  Sócrates (469 a 399 a.c.) dizia que o espírito é a causa da existência no corpo; desde que esse princípio animador o abandone, o corpo perece e morre. O Pai da Filosofia Grega chegou a afirmar que o espírito é o nosso único bem imperecível e temos de educá-lo.
O presidente americano Abraham Lincoln teria dito que se nós soubéssemos quem somos e para onde nós iremos após a morte, por certo agiríamos de maneira diferente.  A visão espírita alarga os horizontes a respeito desse magno tema.
Hernani Guimarães de Andrade (contemporâneo) definiu o espírito como um arquétipo, tetradimensional histórico e  auto organizado, possuindo o arquivo completo de sua evolução histórica, atingindo por seus próprios meios, estágios mais avançados, armazenando
experiências anteriores e delas se valendo para evoluir sempre. A importância, portanto, do autoconhecimento permitirá uma melhor tomada de atitudes na conquista da paz interior.
É comum falarmos nas emoções, sensações, virtudes, violência e deixarmos o conhecimento do espírito para depois, quando, na realidade, é ele o objeto de toda a educação humana. É nele que se encontra o psiquismo humano com seu arquivo de vivências e a fonte impulsionadora dos pensamentos. A felicidade ou a infelicidade depende, portanto, da educação que se lhe dê. A orientação segura na direção de sua transformação moral é que levará o espírito para melhores estágios evolutivos. Educar os sentimentos é trabalhar esse campo do espírito que se relaciona com a moral. Vejamos o ponto de vista da Doutrina dos Espíritos a respeito desse tema:
- O espírito é o resultado do aperfeiçoamento do princípio inteligente que veio fazendo experiências através dos reinos da Natureza, até a sua completa individualização, recebendo então o nome de Espírito;
- Todos os espíritos  foram criados simples e ignorantes, sem que uns tenham sido criados já santos e outros imperfeitos;
- Sua coloração varia do escuro ao brilhante, conforme seu grau de evolução espiritual;
- Durante as reencarnações ele vai acumulando experiências e conhecimentos, desenvolvendo capacidades e progredindo sem retroagir:
- Ele influencia a sua própria genética do corpo físico por intermédio do perispírito;
- As zonas psíquicas do espírito possuem a capacidade de arquivar vivências e de influenciar a encarnação seguinte de acordo com o conteúdo saudável ou deletério que exista em seu interior;
- O uso da prece fervorosa, da oração sentida, da meditação profunda, do hábito de bons pensamentos e sentimentos modifica a energética espiritual, trazendo paz á alma encarnada e o espírito.
Como observamos, todas as funções psíquicas estudadas por psicólogos e psiquiatras fazem parte da estrutura do espírito. Desde a inteligência até as emoções, elas nada mais são do que elementos pertencentes à alma.                             

O Perispírito

O vocábulo perispírito foi um neologismo, criado por Allan Kardec
para designar o envoltório do Espírito. Etimologicamente, temos: peri (grego) = em torno, spiritus (latim) – perispírito. Existem dezenas de vocábulos diferentes para  designar esse corpo sutil da alma; os mais conhecidos são: 
- corpo espiritual, empregado pelo discípulo Paulo;
- psicossoma, criado por André Luiz, através da psicografia de Chico Xavier;
- corpo astral, de origem esotérica;
- Kama-rufa, utilizado no budismo;
- corpo fluídico, usado por  Leibnitz
A Codificação Espírita faz uma síntese sobre o períspirito, dizendo:
-  A natureza do períspirito é mais ou menos etérea  segundo o mundo  e o grau do Espírito; isto é, o períspirito poderá ser mais ou menos denso, com maior ou menor frequência energética e alterando-se de acordo com as vibrações vertidas do Espírito;
- As propriedades são as mais variadas possíveis. Ele poderá ser suscetível aos comandos da alma ou se modificar antes as vibrações provindas do exterior;
- As funções são além daquela de servir de elemento intermediário  e ligar o espírito ao corpo, ele atua também na formação do corpo físico durante o período de gestação, bem como lhe fornece elementos vitais durante a existência do corpo físico;
- Outras observações informa que o perispírito apresenta-se com uma estrutura mais ou menos semelhante à do corpo material, só  que em outra frequência vibratória. Ele poderá estar tão densificado (sem brilho)  ou tão etéreo (iluminado e irradiando luz), dependendo de suas condições espirituais. O perispírito ainda está vinculado a uma série de outros fenômenos tendo parte importante no processo reencarnatório,  acompanhando o Espírito durante suas existências.                          

O Psiquismo

A Doutrina Espírita explica que a origem do Espírito se perde no tempo. Ele é um produto originado da essência espiritual, criada por Deus em época remotíssima, e destinado a um processo de constante aperfeiçoamento. Esse princípio espiritual em sua gênese um impulso inicial das forças divinas da criação e se torna, a partir daí, um elemento participador do processo evolutivo. Nessa longa caminhada ele recebe e produz influências variadas que irão tipificar uma energética espiritual cada vez mais aprimorada e com certas condições de atuar junto à matéria densa.
Tudo fica arquivado nesse repositório sutil em condições de configurar uma vida mental embrionária em seu início. O conjunto de elementos vibráteis dessa estrutura em desenvolvimento é que irá compor o que hoje se chama Psiquismo. É importante destacarmos que a partir da fase humana seu complexo psíquico já atingiu condições mais nobres e mais capazes de estabelecer conexões mentais entre as diversas funções psíquicas que se estruturam em seu interior. Vimos, então, o processo da memória, dos instintos em transformação, do surgimento  das emoções, da inteligência em níveis cada vez mais elevados e das demais capacidades que se estruturam na parte psíquica do ser humano.

Funções Psíquicas

As funções gerais do psiquismo são: a atenção e o hábito. A primeira corresponde à capacidade selecionadora dos fatos, isto é, a colocação da mente num foco de atenção, como por exemplo, a reflexão sobre um assunto qualquer, a contemplação de uma paisagem e demais ações que especificam o objeto de interesse da mente. A segunda se refere ao hábito adquirido pela repetição. A série de atos conscientes repetidos se tornam inconscientes por automatismo. Assim. A repetição exaustiva da bondade levará o indivíduo ao hábito da bondade, adquirindo o saudável condicionamento inconsciente dessa virtude. Ele então agirá espontaneamente com pensamentos e atos de bondade porque ela já é parte integrante de seu psiquismo. Os atos saudáveis geram ações satisfatórias e os deprimentes só produzem mal estar. Muitos dos nossos atos praticados hoje emanam de hábitos adquiridos no passado, os quais pressionam nossa existência no presente.
As funções  especiais do psiquismo  atuais, caracterizam o nível  de 
desenvolvimento mental e espiritual da criatura humana. Nossas funções psíquicas demandam conhecimento constante e prática na direção de nossa pureza espiritual. O autoconhecimento é importante porque sem ele o indivíduo não vê o caminho de seu futuro e não sabe por que age ou reage dessa ou daquela maneira.

Instintos

No capítulo IV, 1ª parte de “O Livro dos Espíritos”, o instinto  foi descrito como uma espécie de inteligência ou como uma inteligência sem raciocínio, rudimentar e não racional. Os Espíritos explicam, ainda, que o instinto existe sempre, mesmo entre pessoas mais intelectualizadas, o que significa dizer que podemos aliar o instinto a inteligência, oferecendo-lhe uma boa dose de razão. Quanto menos intelectualizado for o ser humano, mais ele seguirá as suas forças instintivas. Um sujeito, por exemplo, poderá cometer desatinos para saciar seus instintos, como acontecia no período primitivo da humanidade. Até hoje ainda vemos e constatamos comportamentos que denotam uma ancestralidade animal muito forte em certas pessoas, onde o instinto sobrepõe o sentimento. As forças instintivas são muito exploradas pela mídia, conduzindo as  pessoas a uma aceitação de programas  que em nada contribuem para o aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade em geral.
Os instintos, portanto, possuem sua razão de ser e sua utilidade no desenvolvimento do ser humano, e quando eles estão sob o comando da inteligência e do bom senso, há um aprimoramento considerável do mesmo na direção dos sentimentos mais elevados.

Inteligência

A inteligência é conceituada como uma função mental que permite ao ser humano aprender ou conhecer, bem como saber enfrentar situações novas. Ela é adaptativa, isto é, possibilita o conhecimento e a adaptação das diversas situações que surgem na existência da pessoa. Diz-se que aqueles que têm mais facilidades para o aprendizado e para resolver as questões que aparecem são mais inteligentes do que aqueles que não a possuem.      Essa função tem  rotulado  as pessoas de inteligentes ou pouco inteligentes, dividindo-as segundo algumas capacidades intelectuais de que são portadoras; o chamado teste de Q.I.  Através dele se destacam os gênios, os superdotados, os acima ou abaixo da média.  Significa dizer que o gênio verdadeiro possui uma mente com grande inteligência adquirida pelo conhecimento nas múltiplas existências.
Na visão espírita o ser humano vem desenvolvendo aptidões nas suas várias etapas existenciais e, dependendo de sua escolha, ele poderá aprofundar o estudo e o aperfeiçoamento dessa ou daquela aptidão, adquirindo, então, a inteligência na área correspondente. Um Albert Einstein, por exemplo, não se constrói  em apenas uma encarnação. Possivelmente ele veio desenvolvendo o campo da matemática e da física em encarnações passadas, assim, como um Francisco de Assis começou sua espiritualidade em outras encarnações. Visto que o ser humano não possui uma única existência, é lógico que ele vem adquirindo conhecimento e mais conhecimento no transcurso de suas existências e continuarão esse processo no futuro. Daí o surgimento de uma inteligência mais aprimorada a cada existência. É evidente, também, que o desenvolvimento de algumas aptidões e vocações favorecerá o aprimoramento de outras aptidões.

Sentimentos

Os sentimentos foram estudados por várias áreas de estudo do conhecimento humano. Cada vez mais os neurocientistas conseguem localizar, no cérebro, as regiões correspondentes á fala, à audição, a parte da inteligência, às diversas emoções, os sentimentos e demais atributos do ser humano. O estudo do cérebro é muito importante por tudo aquilo que ele representa na estrutura do corpo físico, bem como pela grande central de reações químicas  que ele é; no entanto, por detrás dele, está a fonte mental de todos os fenômenos emocionais e morais: O ESPÍRITO. A ciência terrena, evidentemente, ainda não logrou chegar até a gênese das funções psíquicas, suas origens reais e profundas.
O sentimento é o cerne da espiritualidade. Ele pode ser considerado uma função racional, mais sutil, porque obedece a lógica do coração e não da cabeça. Os dicionários definem os sentimentos como um conjunto de qualidades morais do indivíduo, portanto, altamente transformadora de uma sociedade. Sem as qualidades morais o ser humano voltaria à barbárie, às guerras sem fim e aos sofrimentos de toda ordem. Essas qualidades são a essência  das leis divinas que regem a felicidade humana. Na visão espírita, os sentimentos foram aflorando progressivamente durante as múltiplas existências terrenas. A forma mais primitiva desses sentimentos manifesta-se sob as expressões de maldade, de egoísmo e de todas  as maneiras ainda bem conhecidas em nossa época. Não foi sem razão que Allan Kardec insistentemente nos disse: “...no encarnado como no desencarnado, é sobre o sentimento  que se faz necessário atuar”. 
Fonte:
Livro “Educação dos Sentimentos”
Jason de Camargo
+ Pequenas modificações

Jc.
São Luís, 31/12/2015

A VIOLÊNCIA




Hoje em dia a violência está em evidência. Não se vê outra coisa, não se ouve outro comentário. Diante da crônica diária que nos apresenta o rádio, os jornais e os filmes mostrados nas televisões e na Internet, a enfocar com vistas à audiência ou ao mercantilismo, o desespero, os maus exemplos, o vício, a violência e o crime espalhados nas grandes e pequenas cidades, praticados com requintes de perversidades; torna-se mais que imperativo, fazer-se alguma coisa no sentido de combater as causas de tão terríveis males. E quais são essas causas?  Respondemos: A ignorância é a principal delas, seguida do egoísmo e da falta de moralidade, decorrente da falta de religiosidade das pessoas. E no quadro da ignorância, arriscamos alguns exemplos para reflexão de todos nós: 1º- A ignorância de Deus. Temos ligeira noção de Sua existência, porém não paramos para refletir que somos obra Sua, e por isso, temos o dever e a necessidade de sermos bons; 2º- A ignorância de nós mesmos, o que somos, de onde viemos, para onde vamos, e, a razão e finalidade de nossa presença no mundo; 3º- A ignorância da pessoa do próximo. Se também ele é filho de Deus, é nosso irmão e temos deveres para com ele; 4º- A ignorância até mesmo do significado de alguns termos como, lar, educação, sociedade, nacionalidade e humanidade. 5º- A ignorância finalmente, do sentido do termo religiosidade, que não é mero culto de adoração, mas de vivência do espírito de caridade, amor e fraternidade.

Não será o simples ato de se benzer, tomar um passe, ler um salmo, que nos levará a nos tornarmos melhores. É preciso a nossa modificação, e esta, deve começar por dentro de nós mesmos, como bem disse Jesus, substituindo os maus pensamentos pelos bons, evitando as palavras maldosas, afastando gradativamente os vícios, maus atos e exemplos, lutando contra as próprias imperfeições, para alcançarmos à melhora moral e espiritual, melhorando dessa forma o mundo, na jornada para o Pai Celestial.

Por que há tanta violência no mundo? – A violência atual é própria de um mundo de expiações e provas, onde estão reencarnando milhões de espíritos em estágios primitivos de evolução, juntamente com espíritos mais evoluídos. Esses espíritos atrasados ainda se deixam dominar por seus instintos e, quando impulsionados pela necessidade material e outras razões, cometem crimes porque não têm consciência do bem e do mal. Além disso, o desconhecimento da vida espiritual, o materialismo ainda reinante e a indiferença pelos sentimentos dos outros, também colaboram para o desgoverno emocional e moral de muitos que se deixam envolver pelo mal.

E por que a mídia exibe tanta violência? – Porque grande é o número de pessoas que lêem, ouvem, assistem, gostam e dão audiência. Um programa, uma reportagem ou uma notícia, só é destaque porque têm audiência constante; se não houvesse audiência não haveria patrocinadores e o que quer que fosse apresentado seria descartado.  A banalização da violência, principalmente nos jornais, nas televisões e na Internet, reforça condutas agressivas, levando a um aumento do número de crimes, além de ensinar e incentivar a vingança e outras barbáries. As cenas violentas, as notícias criminais, as lutas, os tiros e jogos violentos apresentados pela televisão, transmitem mensagens ao subconsciente de que a violência, a crueldade e a vingança são atos “normais”.  Para quem sente prazer em ver tragédias que são repetidas insistentemente, assistir filmes violentos ou novelas com suas baixarias e programas apelando para o sexo, salientando tudo o que não serve como exemplo digno; o bem, é apenas uma convenção social que não faz parte, ainda de seus valores. Afinal, quando o “mocinho” bate e mata melhor, ele não se iguala ao bandido?

No lar, a violência física (bater, ferir e matar) é a forma mais brutal, mas ela também se manifesta entre familiares, através de palavras ofensivas, de ódio, gritos, castigos, tapas para educar, palavrões e situações de imposição, sendo utilizada até a força física às vezes. E, como exemplos negativos, as novelas estão cheias de discussões, brigas, desrespeito, planos de vingança e outras baixarias mais. É preciso identificar os programas que incentivam e banalizam a violência, que acabam envolvendo a família numa vibração negativa e prejudicial. Se a audiência desses programas diminuírem significativamente, porque não nos afinamos com eles, serão modificados ou sairão do ar por faltas de público. Queremos lembrar que, quem assiste, tem prazer e comenta a violência, está fornecendo vibração negativa para que mais violência se materialize. Ninguém é obrigado, pelo fato de ter uma televisão, a assistir toda essa baixaria que as emissoras querem nos impingir.

Como autoeducação e disciplina moral, é possível deixar de sintonizar e comentar o mal, escolhendo melhor o que entra em nosso lar através dos jornais, do rádio, da televisão e da Internet. Utilizando o livre-arbítrio, cada ser humano escolhe o que deseja ver, ouvir, comentar, pensar e fazer, colaborando para um mundo menos violento, com o envolvimento de todos e agindo em favor de uma paz duradoura entre os seres humanos. Uma montanha é constituída de pequeninos grãos de areia, o mar é feito de minúsculas gotas de água; a reforma do mundo começa com as ações de cada pessoa que queira contribuir para melhorá-lo.

Também é essencial investirmos em educação moral e intelectual, oportunizando condições de existência digna para todos, sem achar que isso é tarefa apenas do Governo. Somos responsáveis, direta e indiretamente, por essa violência, ao aceitarmos passivamente tudo o que acontece, sem ao menos protestarmos ou trabalharmos para tentar modificar essa situação.

A revista “Veja”, trás uma reportagem de Consuelo Dieguez, em que mostra com fotos e comentário, a vida de dois irmãos nascidos e criados em bairros violentos da periferia da cidade do Rio de Janeiro. Conta-nos a história de Haroldo, que tomou aversão pelo crime e trabalha duro para ajudar a família, e de André, que foi seduzido pela vida de bandido; preso e condenado a 28 anos de reclusão, por roubo de carros e homicídios. André é frio ao comentar e tentar justificar os assassinatos que cometeu. “Quem mata é Deus; a gente só faz os buracos de balas”, diz ele com tranqüilidade de causar espanto, sem se incomodar com a indignação de quantos ouvem suas palavras.

Histórias como essas são corriqueiras nos bairros pobres e nas favelas das grandes cidades. Do mesmo lugar de onde parte um batalhão de infratores, iludidos por uma existência fácil, parte também um exército muito maior de jovens trabalhadores que lutam para sobreviver e conseguir uma existência melhor. Por que, em uma mesma família carente, um jovem envereda pelo caminho do crime, enquanto outros irmãos levam uma vida correta, apesar de todos terem enfrentado as mesmas situações adversas?

Antigamente o problema da violência era analisado por duas óticas. Para uns, o criminoso era produto unicamente da pobreza. Para outros, a pobreza nada tinha a ver; dependia da vivência e dos exemplos recebidos. Recentemente, uma pesquisa realizada pela médica Simone Gonçalves de Assis, da Fundação Oswaldo Cruz, mostra que as duas análises simplificam o problema, não resolvendo a busca de soluções para o assunto. Não há dúvidas de que a miséria é um fator desestabilizador que pode levar à violência, bem como a vivência e os exemplos. Porém, se apenas uma parte dos jovens das comunidades carentes vira marginal, esse é um sinal de que muitos outros fatores interferem na formação do caráter violento; do contrário, todos os jovens estariam inapelavelmente condenados ao crime. Com a pesquisa, foram encontrados novos caminhos que conduzem o jovem ao crime. O trabalho que foi premiado pelo Unicef, transformou-se no livro recém-lançado, cujo título é: “Traçando Caminhos em uma Sociedade Violenta”.

O que foi apurado que leva ao crime? – 1º A falta da figura paterna. Os filhos que convivem menos com os pais costumam ter um modelo masculino fraco, e na falta desse convívio tendem a se perder; 2º A falta de atenção e carinho. A falta de vínculos afetivos fortes com os pais e outros membros da família contribui para o desequilíbrio emocional; 3º A falta de harmonia e de religiosidade na família faz com que o jovem se sinta inseguro, contribuindo para o seu afastamento do lar.

E o que faz com que o jovem nas mesmas condições se afaste do crime?  Em primeiro lugar: Afeto e cuidados. Atenção dada na infância ajuda a construir uma personalidade mais equilibrada. Quem não recebe e não tem amor, não sabe dar; 2º Limites: Regras e orientações claras na infância estabelecem a educação e noções de limites de direitos e deveres, bem como do que é certo e errado, para o resto da existência. 3º Modelo de comportamento: A existência da uma figura positiva, como um pai, uma mãe ou mesmo um professor, cria parâmetros de bom viver. 4º Religiosidade: A religião contribui para o reforço dos valores morais, refreando instintos e elevando os sentimentos de fraternidade e amor entre as pessoas.

Além do que foi apurado na pesquisa efetuada com 60 jovens que cometeram delitos graves e cumprem pena em prisões e instituições para menores, e, com seus irmãos que não tinham cometido atos violentos, foi comprovado que o problema, em grande parte, está nas relações familiares. Em 80% dos lares pesquisados, os pais são separados ou as mães são solteiras. O problema maior é que nos lares pobres, além da ausência do pai, e das conseqüências emocionais, pesam também as financeiras. As mães, obrigadas a trabalhar fora para sustentar a família, deixam os filhos na maioria abandonados. As crianças, por esse motivo, acabam sendo criadas sem nenhum cuidado e afeto, orientação ou disciplina. Como vivem, na maioria, em comunidades pobres e violentas, são facilmente atraídas para o mundo do crime. Um deslize um dia, outro dia um pequeno furto, e o caminho para a marginalidade está aberto.

Outro fator apurado é que os irmãos mais novos tendem a se envolver muito mais facilmente com o crime. A explicação é que os irmãos mais velhos começam logo a trabalhar para ajudar a mãe; isso faz com que desenvolvam a noção de responsabilidade que os protegem do mundo do crime. Os filhos mais velhos geralmente se sentem na obrigação de fazer o papel do homem da casa. Outro aspecto comprovado, tão grave quanto à ausência do pai, são os efeitos da violência sobre as crianças, no lar. As conseqüências da combinação da negligência com a agressão física, nas crianças com até 10 anos de existência, poderá desenvolver e perpetuar sintomas agressivos, tornando-a deprimida e incapaz de se ligar afetivamente. É impressionante, que 90% dos delinquentes entrevistados, não demonstrassem ter sentido a menor pena por suas vítimas, inclusive as que eles mataram.

Ainda que se atribua à família grande parte de todo o desajuste, não se pode negar também, a grande contribuição que a família desempenha na formação digna dos seres humanos, e, nem desprezar as características pessoais de cada ser. O médico Lauro Monteiro atendeu a vários casos de crianças que eram consideradas como “pestes” e “ruim da cabeça”, pelos pais, e por esses motivos, rejeitadas, ele comprovou que na verdade, muitas delas estavam deprimidas, carentes e inseguras.

 Embora a humanidade terrena esteja ainda muito distante do ideal e permaneça no seu seio contundentes vestígios da barbárie de outrora, é evidente reconhecer que estamos em progresso moral. Os registros históricos mostram que essa humanidade que hoje se vê chocada com os crimes considerados hediondos, como a brutalidade, a violência e as agressões a pessoas humildes; outrora, essa mesma humanidade comparecia frenética aos circos romanos para assistir ao martírio dos cristãos, queimados vivos ou estraçalhados pelas feras. Em nome da lei, praticavam-se cruéis episódios de torturas e lapidações em praças públicas; eram costumeiras as crucificações que impunham terríveis sofrimentos aos condenados; em nome de Deus, as fogueiras da Inquisição, queimaram e destruíram milhares de pessoas, com o testemunho impassível e festivo das multidões, que se  deliciavam. Ainda em épocas recentes, escravos eram mortos a chibatas nos troncos deste nosso país...

Entretanto, mesmo com o avanço intelectual da humanidade, é ainda muito acanhado o desenvolvimento do senso moral. É natural, portanto, que no seio das sociedades mais adiantadas, sejam encontrados seres ainda tão cruéis, quanto os bárbaros do passado.

Os Espíritos que orientaram o trabalho de Allan Kardec, a esse respeito, assim se posicionaram: “São, se quiserdes, que da civilização só têm o exterior; lobos selvagens em meio a cordeiros. Espíritos de ordem inferior e muito atrasados estão encarnando entre pessoas adiantadas. Mas, desde que a prova é demais pesada predomina a natureza primitiva.” Kardec nos assevera ainda em nota à pergunta 754 de “O Livro dos Espíritos”: “Em estado rudimentar, todas as faculdades existem na pessoa. Desenvolvem-se, conforme lhes sejam mais ou menos favoráveis as circunstâncias. A excitação dos instintos materiais abafa, por assim dizer, o senso moral; assim como o desenvolvimento do senso moral enfraquece pouco a pouco as faculdades puramente animais.”

O ponto positivo que se pode detectar no momento em que vivemos, está justamente nas inúmeras manifestações de indignação e inconformismo, quando tais fatos ocorrem. Isso demonstra que a sociedade já não aceita mais conviver com a barbárie. O ser humano então buscará os meios de construir uma sociedade mais justa, civilizada e feliz, onde a Doutrina dos Espíritos lhe oferecerá a mais poderosa alavanca para alcançar tal objetivo. Compete à sociedade, afastar do convívio das demais pessoas, aqueles que transgridem suas normas; porém é também sua obrigação, implementar os meios de atender às exigências sociais e promover a educação moral das pessoas. Nessa tarefa, nenhuma doutrina oferece melhores esclarecimentos do que a Doutrina Espírita.

Estamos hoje, após séculos de esforços, formando correntes de paz; equipes de proteção à natureza e criando órgãos destinados a amparar os que sofrem. Por isso, não podemos aceitar a opinião de certas pessoas que dizem ser a vida de hoje só violência, sofrimentos e guerras. Sem dúvida, não faremos vista grossa ante a realidade; ainda estamos mais próximo do bruto que do sublime; mas podemos viver com otimismo vendo sempre o lado bom das coisas.  Diz Emmanuel que “Somos hoje qual árvores que apesar das raízes cravadas na terra, possui galhos e flores voltados para o céu”. É assim que precisamos ver os dias: um mundo de possibilidades, variando apenas o ângulo pelo qual o olhamos e o esforço que fazemos para melhorá-lo.

O Mestre certa vez disse: “Conhecereis a Verdade e ela vos libertará.” Sejamos fortes para ver e ouvir tudo, mas retendo em nosso íntimo, apenas o bem, o belo, o útil e o produtivo. A nossa participação no mundo material é para o exercício da paz e da nossa evolução espiritual, razão porque devemos manter a tempestade pessimista fora da nossa vivência.

O estudo do Evangelho leva todas as pessoas a se amarem como irmãos e a encontrarem a comunhão, a resignação e a soluções afetivas para os problemas da dor e dos conflitos que infelicitam a existência na Terra. O estudo do Evangelho permanente e a observância dos seus ensinamentos, poderão nos ajudar a vencer o mal maior que é a ignorância, e nos fazer uma nova pessoa. Paulo já nos dizia na epístola aos Coríntios:  “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convêm”.

Atingimos o tempo do cumprimento das coisas anunciadas para a transformação da Humanidade. O progresso é uma das leis da Natureza e todos os seres da Criação, a ele estão submetidos pela bondade de Deus. A própria destruição que parece o fim das coisas, não é senão um meio de atingir, pela transformação, um estado de coisas mais perfeito. A Terra, seguindo essa lei, esteve material e moralmente num estado inferior ao que está hoje, e atingirá muito em breve, um degrau mais avançado, tornando-se um mundo de regeneração, onde as pessoas serão mais felizes, pelo expurgo dos espíritos inferiores para outros mundos, e a chegada de espíritos mais evoluídos para colaborarem com o progresso, porque a lei de Deus, nela imperará.

Tenhamos, pois, confiança em Deus, que tudo preside, certos de que tudo está sob controle e dentro da programação  superior,  ao  imaginável  por qualquer um de nós, lembrando ainda que, não estamos dispensados de fazer tudo ao nosso alcance, no combate ao mal e na implantação do reino de amor e fraternidade na Terra.

Que o Senhor nos livre de cairmos nas tentações inferiores...


Bibliografia:
Revista “Veja”
Livro “Traçando Caminhos em uma
Sociedade Violenta”
“Livro dos Espíritos”


Jc.

São Luis, 14/07/1997

Refeito em 23/02/2016